“Há mulheres num sofrimento enorme e que vêm pedir ajuda”

Out 28, 2026

Eva Palha é médica de família em Santarém e conhece de perto as dúvidas e dificuldades das mulheres que ponderam abortar. Defende mais apoio, melhor articulação no SNS e alternativas concretas para quem deseja continuar a gravidez, mas também o acompanhamento das mulheres que optam pelo aborto.

Na sua experiência clínica, que mulheres procuram o médico de família quando ponderam fazer um aborto?

Encontro sobretudo dois tipos de mulheres que nos procuram enquanto médico de família. Umas chegam com uma decisão praticamente tomada, porque consideram que têm segundo a sua visão, uma razão válida para não continuar a gravidez. Nalguns casos a razão é por dificuldades económicas, noutros por relações instáveis ou uma gravidez que não se enquadra no planeamento actual das suas vidas.

Depois há mulheres que claramente vêm num sofrimento enorme e que vêm pedir ajuda. O aborto surge como solução, que não é a que desejavam para um problema. Encontram-se num dilema, muitas vezes emocionalmente fragilizadas. Há situações em que o companheiro exerce uma grande pressão para que não tenham o filho. Nestes casos é fundamental perceber o que está por detrás daquela decisão e tentar encontrar respostas para as dificuldades que enfrentam.

Em ambos os perfis, não fazem uma escolha livre mas sim uma escolha condicionada, que vai ter impacto imediato ou futuro nessa mulher.

 

E há diferenças em relação às mulheres que recorrem diretamente ao hospital?

Penso que sim. As mulheres que procuram o centro de saúde pimeiro são, na sua maioria, mulheres que têm uma consciência moral da decisão que vão tomar. Algumas procuram validar connosco as razões que encontram para não continuar a gravidez; outras procuram verdadeiramente ajuda.

A nível das mulheres que recorrem diretamente ao hospital, pelo que conheço e pelo que converso com colegas, ocupam uma faixa etária mais jovem, dos 20 aos 29 anos, algumas em situações de aborto repetido e também existe uma elevada percentagem de mulheres estrangeiras. No último ano, na estatística da consulta de datação de gravidez em Santarém, uma elevada percentagem não realizava métodos contracetivos (cerca de 53%). Parece uma realidade crescente as jovens não pretenderem realizar métodos contracetivos hormonais e os companheiros também não utilizarem métodos de barreira.

Aparentemente são realidades distintas ainda que não se possa colocar todas as mulheres na mesma situação.

 

Olhando para os dados da DGS, como interpreta a evolução do número de abortos em Portugal?

Analisando os dados da minha região, que apresentam algumas semelhanças com os nacionais, nomeadamente no perfil das mulheres. Destaca-se uma população jovem, sobretudo entre os 20 e os 29 anos, e penso que há várias possíveis justificações.

Por um lado, as questões comportamentais onde impera a liberdade sexual e a liberdade individual. A menor adesão a métodos contracetivos hormonais e de barreira.

E penso que nestas faixas etárias também as dificuldades económicas poderão ter um peso importante. Muitos jovens adultos têm dificuldade em alcançar estabilidade e em reunir condições para constituir família.

 

Mais de quatro em cada dez abortos por opção da mulher são realizados por estrangeiras. Considera que existe uma maior vulnerabilidade?

Penso que há, desde logo, o aumento da população estrangeira residente em Portugal. Mas também existe uma maior vulnerabilidade nestas populações.

Falava recentemente com uma colega sobre mulheres indianas que procuram o aborto. Culturalmente, e até por questões religiosas, não seria tão expectável, mas têm representatividade nos abortos realizados na nossa região, bem como a população Brasileira e Africana. Poderá estar relacionado com as dificuldades e a fragilidade em que muitas destas mulheres vivem.

Há ainda a questão do acesso aos cuidados de saúde. Mesmo que os métodos contracetivos sejam disponibilizados gratuitamente, a ausência de uma equipa de saúde familiar pode dificultar o acompanhamento e o acesso ao planeamento.

 

A barreira linguística também pode dificultar o acesso à informação e a outros apoios?

A barreira linguística é uma dificuldade concreta, mas por vezes as razões culturais na adesão aos métodos contracetivos que são propostos ou até o desconhecimento e a iliteracia são importantes obstáculos.

A fragilidade social e económica destas populações tem um peso muito importante e a vulnerabilidade das mulheres aos seus companheiros.

 

Quando uma mulher decide procurar o SNS porque pondera abortar, que percurso faz?

Pode procurar o centro de saúde, ligar para o SNS 24 ou dirigir-se diretamente ao hospital.

Em Santarém, quando procuram o centro de saúde, podem ser encaminhadas através de uma linha telefónica direta que agenda uma consulta hospitalar. Se recorrerem diretamente ao hospital são encaminhadas para uma consulta, que funciona como uma “consulta aberta” em dois dias semanais.

Nessa consulta é confirmada e datada a gravidez. Como o Hospital de Santarém atualmente não realiza abortos, as mulheres são encaminhadas para a Clínica dos Arcos, em Lisboa. Nesta consulta de datação da gravidez é agendada uma consulta de Planeamento Familiar no hospital e poderá existir apoio psicológico, dependendo da resposta disponível.

 

Leia aqui a entrevista completa.

Por Joana Ludovice de Andrade
Entrevista publicada no Jornal Nascer do Sol, a 16 de outubro de 2026

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